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jueves, 30 de noviembre de 2017

Algias

Elegia 1
.
Já repeti o antigo encantamento
e só o cimento respondeu,
rastro de cinzas de maçã vencida,
desvestígio de gosto,
estanque julho que moeu vindimas
e deixou no espaço seu vinagre branco.
Onde havia um deus
os dias emboloram nuvens
de estrita agonia antepassada
que se olha no espelho
antes do adeus.
Inexiste, não soa, o que havia
fixou-se atrás da mente:
fim estalado de fotografia.
É agosto seco. É hoje e nunca houve.
.
Alergia 2
.
Já repeti o velho encantamento
e o antigo deus Xipanto não azarou
na minha gleba de piche solferina.
Peguei o convescote, as sandálias murchas
e mudei de travesseiro lírico,
para afinar meu sambão em outros infernos.
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Elisabeth Veiga | "Algias".
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viernes, 10 de noviembre de 2017

Mil vezes

1
.
Só quem foi cicatrizado
muitas vezes
guarda
o vidrinho de Merthiolate.
Só quem foi cicatrizado
num exorcismo
mil vezes
tem uma fronha de lenços
onde a cabeça mal sonha.
.
2
.
Só quem foi acordado
no meio da noite
mil vezes
pelo corte pontiagudo
acorda por acordar,
acorda escancarado
com as portas batendo saltos,
guarda
um remedinho de trincos.
.
Só quem acorda mil vezes
não sabe mais quando dorme.
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Elisabeth Veiga | "Mil vezes".
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Perda

Da primeira vez que me quebraram
toda
dobrei os joelhos,
caí sem joelhos,
me dobrei toda sobre
o vazio dos braços.
Os ossos tiritavam,
a cabeça estalava
um sino:
toda um estaleiro
sem navios,
só pavios de viagem,
toda uma estalagem
bêbada de sombras
e sinas,
não sabia mais
quantas primaveras
fazem um cisne,
não sabia
beber a não ser
com as mãos em cuia,
eu era um pires
com a cara redonda
que os gatos lamberam
e fugiram,
um piano com febre
em desarticulação nervosa,
uma pátina derretida,
uma patavina
atarantada
com os caracóis da poeira
sumida no horizonte.
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Elisabeth Veiga | "Perda".
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Ao amor búfalo

Que heras venenosas te recubram
o avesso dos cabelos onde a ideia
de amor brotou torta
da cratera
desde o início.
E o tempo em temporais de areia
seja-te leve
ó meu suplício.
Nada foi verdadeiro na vereda
de finos artifícios
que teceram
com palha a fogueira das malícias,
benesses pesadelas:
teu passo elefantino e orgulhoso
com seus troféus de espanto e garrotes
novos à garota agradecida.
Seja-te leve esse esconjuro
de sal e ardósia,
esta laje com jeito
e faina de esfiapar-te
da lembrança,
cataventos
de cartas de amor despedaçadas.
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Elisabeth Veiga | "Ao amor búfalo".
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Sonata achincalhada

1 (coisas de superegos)
.
Canonizaram o esqueleto da burra.
Entronizaram-lhe os quartos traseiros
num andor.
Suas mandíbulas
atarracadas
silvam bênçãos.
Condenaram-na ao inferno.
.
2 (esquisitices de ego)
.
Na algibeira da muleta
carrego
a panela de pressão social
fervendo,
e uma xícara de chacota
sem açúcar.
E resfolego, mula,
sem pretender o Olimpo
das belas letras,
vou trôpega,
vou pelo avesso
empacada.
Quem quiser que funcione:
eu sou um parafuso a menos
da máquina do mundo.
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Elisabeth Veiga | "Sonata achincalhada".
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