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lunes, 19 de marzo de 2018

Grand finale

Difícil depor um amor.
Convencido de que a saída
é assassiná-lo,
o arqueiro toma posição.
E ao sinal imperceptível
de algum deus,
dispara a flecha incendiária
em direção ao sol.
.
Antonio Risério | "Grand finale".
.

Fim de caso 3

onde quer
que você     
me esqueça
.
que eu
apareça
e cresça
.
fantasia
espessa
.
doendo
densa
.
na sua
cabeça
.
Antonio Risério | "Fim de caso 3".
.

martes, 6 de marzo de 2018

Numanoite

Incêndio no céu.
Tudo em fogo, fogo frio.
Tua alma, Marina, ficará
retida nalguma alfândega astral.
Eu, macaco-da-noite, continuarei
ouvindo a música das exferas.
Vou riscar a nata da Via-Láctea.
Arrematar a moça que mata
com seus ossos azuis
e seus pentelhos de prata.
.
Mas há também o impossível, Marina.
Impossível dar conta
de pé na ponta de mais um maio
(depraved May, Christ the Tyger)
de tantos ventos, raios, eventos.
Não há tempo, Marina. O céu vai desabar.
A mata celeste cairá
sobre a minha cabeça.
.
Impossível, doce e dura criança,
saber de todos os lugares.
Algures, entre mulheres e jaguares,
espectros esperam,
corpos caem,
esquinas esquecem.
E é assim mesmo, Marina.
Incêndio no céu.
Tudo em fogo, fogo frio.
.
Afago a luz do quartzo.
Escureço.
.
Antonio Risério | "Numanoite".
.

Vers

*
.
amor que parte o claro riso
em querer desmedido
e recusa insana
.
amor que me toma
como um carrossel de sóis
e um girassol de lâmpadas
.
vê se me alumia
me esclarece
me doma
.
**
.
) sim não simnão nim são sins (
.
eis que não me sei
ser menos que seis
toda e cada vez
.
) sim não simnão nim são sins (
.
***
.
amor que vence os tigres
vê se vence a mim
.
e me arrasa e me ilumina
.
para que eu saiba
saber o sim
.
Antonio Risério | "Vers".
.

Oca

Cava o passado.
Cava e escava,
escravo.
Cava o chão
do passado.
.
Erra na terra deserta.
Vela a vila desaparecida.
Deita na aldeia abandonada.
Chora na cidade fantasma.
.
Mas cava, escravo.
Cava e escava o passado.
Cava a esmo no ermo.
Cava o mesmo no mesmo.
.
(O alucinado sempre
repetindo o filme;
o criminoso sempre
no local do crime.)
.
Lavra, sulca, escarva.
.
E assim até chegar
ao carvão mais vivo
do ébrio coração escândalo
que brilho ainda resta:
.
uma chama na montanha,
outro fogo na floresta.
.
Antonio Risério | "Oca".
.