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martes, 7 de noviembre de 2017

Pergunta

Estes meus tristes pensamentos
vieram de estrelas desfolhadas
pela boca brusca dos ventos?
.
Nasceram das encruzilhadas,
onde os espíritos defuntos 
põem no presente horas passadas?
.
Originaram-se de assuntos 
pelo raciocínio dispersos, 
e depois na saudade juntos?
.
Subiram de mundos submersos 
em mares, túmulos ou almas, 
em música, em mármore, em versos?
.
Cairiam das noites calmas, 
dos caminhos dos luares lisos, 
em que o sono abre mansas palmas?
.
Provêm de fatos indecisos, 
acontecidos entre brumas, 
na era de extintos paraísos?
.
Ou de algum cenário de espumas, 
onde as almas deslizam frias, 
sem aspirações mais nenhumas?
.
Ou de ardentes e inúteis dias, 
com figuras alucinadas 
por desejos e covardias?...
.
Foram as estátuas paradas 
em roda da água do jardim...?
Foram as luzes apagadas?
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Ou serão feitos só de mim, 
estes meus tristes pensamentos 
que bóiam como peixes lentos
.
num rio de tédio sem fim?
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Cecília Meireles | "
Pergunta".
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Velho estilo

Coisa que passas, como é teu nome?
De que inconstâncias foste gerada?
Abri meus braços para alcançar-te:
fechei meus braços, — não tinha nada!
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De ti só resta o que se consome.
Vais para a morte? Vais para a vida?
Tua presença nalguma parte
é já sinal da tua partida.
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E eu disse a todos desse teu fado,
para esquecerem teu chamamento,
saberem que eras constituída
da errante essência da água e do vento.
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Todos quiseram ter-te, malgrado
prenúncios tantos, tantas ameaças.
Grande, adorada desconhecida,
como é teu nome, coisa que passas?
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Pisando terras e firmamento,
com um ar de exausta gente dormida,
abandonaram termos tranqüilos,
portas abertas, áreas de vida.
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E eu, que anunciei o acontecimento,
fui atrás deles, com insegurança,
dizendo que ia por dissuadi-los,
mas tendo a sua mesma esperança.
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No ardente nível desta experiência,
sem rogo, lágrima nem protesto,
tudo se apaga, preso em sigilos:
mas no desenho do último gesto,
.
há mãos de amor para a tua ausência.
E esse é o vestígio que não se some:
resto de todos, teu próprio resto.
— Coisa que passas, como é teu nome?
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Cecília Meireles | "Velho estilo".
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lunes, 30 de octubre de 2017

Epigrama do espelho infiel

A João de Castro Osório
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Entre o desenho do meu rosto
e o seu reflexo,
meu sonho agoniza, perplexo.
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Ah! pobres linhas do meu rosto,
desmanchadas do lado oposto,
e sem nexo!
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E a lágrima do seu desgosto
sumida no espelho convexo!
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Cecília Meireles | "Epigrama do espelho infiel".
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martes, 24 de octubre de 2017

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
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Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
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Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
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Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
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Cecília Meireles | "Motivo".
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viernes, 20 de octubre de 2017

A doce canção

A Christina Christie.
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Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade e não pena.
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Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.
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Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.
.
O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!
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Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o Universo
de pólo a pólo contente!
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Cecília Meireles | "A doce canção".
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martes, 12 de septiembre de 2017

Estirpe

Os mendigos maiores não dizem mais, nem fazem nada.
Sabem que é inútil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar.
Deixam-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de completa coragem,
longe do corpo que fica em qualquer lugar.
Entretêm-se a estender a vida pelo pensamento.
Se alguém falar, sua voz foge como um pássaro que cai.
E é de tal modo imprevista, desnecessária e surpreendente
que, para a ouvirem bem, talvez gemessem algum ai.
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Oh! não gemiam, não... Os mendigos maiores são todos estóicos.
Puseram sua miséria junto aos jardins do mundo feliz
mas não querem que, do outro lado, tenham notícia da estranha sorte
que anda por eles como um rio num país.
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Os mendigos maiores vivem fora da vida: fizeram-se excluídos.
Abriram sonos e silêncios e espaços nus, em redor de si.
Têm seu reino vazio, de altas estrelas que não cobiçam.
Seu olhar não olha mais, e sua boca não chama nem ri.
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E seu corpo não sofre nem goza. E sua mão não toma nem pede.
E seu coração é uma coisa que, se existiu, já esqueceu.
Ah! os mendigos maiores são um povo que se vai convertendo em pedra.
Esse povo é que é o meu. 
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Cecília Meireles | "
Estirpe".

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domingo, 10 de septiembre de 2017

Epitáfio da navegadora

A Gastón Figueira
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Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;
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e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,
.
ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;
.
essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa
.
em sua face iluminada,
dize: "Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,
.
mas seu nome, de barca e estrela,
foi: SERENA DESESPERADA".
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Cecília Meireles | "Epitáfio da navegadora".
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Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
o me animo a um breve traço:
saudosa do que não faço,
do que faço, arrependida.
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Cecília Meireles | "Canção excêntrica".
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Canção quase inquieta

De um lado, a eterna estrela,
e do outro a vaga incerta,
.
meu pé dançando pela
extremidade da espuma,
e meu cabelo por uma
planície de luz deserta.
.
Sempre assim:
de um lado, estandartes do vento…
do outro, sepulcros fechados.
E eu me partindo, dentro de mim,
para estar no mesmo momento
de ambos os lados.
.
Se existe a tua Figura,
se és o Sentido do Mundo,
deixo-me, fujo por ti,
nunca mais quero ser minha!
.
(Mas, neste espelho, no fundo
desta fria luz marinha,
como dois baços peixes,
nadam meus olhos à minha procura…
Ando contigo e sozinha.
Vivo longe e acham-me aqui…)
.
Fazedor da minha vida,
não me deixes!
Entende a minha canção!
Tem pena do meu murmúrio,
reúne-me em tua mão!
.
Que eu sou gota de mercúrio,
dividida,
desmanchada pelo chão…
.
Cecília Meireles | "Canção quase inquieta".
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Canção do caminho

Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.
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Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
Se fosse,
em vez da canção, teu braço!
.
Ah! mas logo ali adiante
tão perto!
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.
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(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)
.
Cecília Meireles | "Canção do caminho".
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domingo, 3 de septiembre de 2017

Taverna

Bem sei que, olhando pra minha cara,
pra minha boca, triste e incoerente,
pros gestos vagos de sombria incerta
que hoje sou eu,
minha loucura se faz tão clara,
minha desgraça tão evidente,
minha alma toda tão descoberta,
que pensam: "Este, não bebeu..."
. 
Passei a noite, passei o dia
de cotovelos firmes na mesa,
de olhos sobre o vinho perdidos,
a testa pulsando na mão:
e muros de melancolia
subiam pela sala acesa,
inutilizando os gemidos,
mas quebrando-me o coração.
.
Deixei o copo no mesmo nível:
bebida imóvel, espelho atento,
onde só eu vi desabrochares,
rosto amargo de amor!
Vim da taverna ébrio de impossível,
pisando sonhos, beijando o vento,
falando às pedras, agarrando os ares...
Oh! deixem-me ir para onde eu for!...
.
Cecília Meireles | "
Taverna
".
.