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martes, 2 de mayo de 2017

Não me julgueis, Senhora, a atrevimento

Não me julgueis, Senhora, a atrevimento
O que me faz fazer hum mal tão forte,
Que não me basta nelle o soffrimento.
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Que tal me traz ja agora minha sorte,
Que me faz buscar vossa crueldade
D'onde só por remedio espero a morte.
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Não vos pude callar esta verdade,
Porque força não tẽe poder humano
Contra outro, que não tẽe humanidade.
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Amor, que tudo faz para mór dano
me deu mal, levou-me o soffrimento,
Ah duro Amor, cruel, e desumano!
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Não vos lembre, Senhora, meu tormento,
Que este bem o merece a ousadia
De eu empregar em vós meu pensamento.
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Lembro-vos hum amor, que cada dia
Em mim tão verdadeiro e firme crece,
Que alheio me traz ja do que sohia.
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Não peço que o pagueis, como merece,
Que não mereço eu tanto, mas só peço,
Que por mim não cuideis que desmerece.
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Porque se só por si he de tal preço,
Que a supprir basta seu merecimento,
Quanto eu de minha parte desmereço.
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Bem vejo que em tomar o soffrimento
Para viver, melhor remedio fôra,
Que hum tão desordenado atrevimento.
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Mas eu, que do viver menos, ja agora
Que de todo a livro, pois crecendo
Vão com a vida os males cada hora,
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Vos quiz manifestar meu mal, sabendo
A quanta desventura se aventura,
Quem pretende fazer o que eu pretendo.
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Quizesse, ó oxalá, minha ventura,
Que castigásseis vós esta ousadia
Com hũa cruel morte triste e dura.
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Que não seria morte, mas seria
Hum suave remedio doce e brando
Deste mal, que me mata cada dia.
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Até quando, Senhora, e até quando
Terá lugar em vós vossa crueza,
E a morte não em mim, que a estou chamando?
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Abrande meu amor vossa dureza,
Que esta alma em si transforma com tal cura,
Que ja não he amor, mas natureza.
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Abrande ja hũa vida, em que só dura
A alma, porque veja, e exprimente,
Que não tẽe fim a grão desaventura.
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Abrande ja hũa dôr, que juntamente
A vida penetrou, e a alma triste,
E lhe roubou o estado seu contente.
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Mostrai-vos poderosa em quem resiste
Em desobedecer, ou enojar-vos,
E não ja contra quem vos não resiste.
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Em quem cuidar que digno foi de amar-vos,
Mostrai vosso poder, pois o merece,
Em mim não, que o não sou tão só de olhar-vos.
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Attentai por huma alma, que se esquece
De si, porque em vós pôz sua lembrança,
E tal, que em nenhum tempo desfallece.
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Nem suspeito que possa haver mudança,
N'hum coração, que mais que a si vos ama,
Dai-lhe ja morte, ou vida, ou esperança,
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Que tudo será glória por tal dama.
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Luís Vaz de Camões | "Não me julgueis, Senhora, a atrevimento".

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Foi-me alegre o viver, ja me he pesado

Foi-me alegre o viver, ja me he pesado,
Que do contentamento que sentia,
À minha custa estou desenganado.
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Ao regaço da Morte a dôr me guia,
Porém, porque com vida mais me mata,
Dilatando-ma vai de dia em dia.
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Manda-me amor fugir da morte ingrata,
(Pois não soffre limite em vós amor)
Que elle os laços ordena, elle os desata.
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Lancei contentamentos a voar,
Tarde os espero vêr, que he seu costume
Ter azas ao fugir, freio ao tornar.
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O pensamento posto em alto cume,
Para sacrificar-se à vossa vista,
No coração me guarda eterno lume.
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Com o pensamento os olhos tẽe conquista,
Pois sempre em vós está, porque os não leva,
Que elle muro não tẽe, que lhe resista.
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Ainda que minha alma em vós se enleva,
Em todo tempo não deixa de arder,
Quando o mõte arde em calma, ou quando neva.
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Vivei cuidados em quanto eu viver,
Ou porque em sombras vossas sempre viva,
Ou porque me apresseis para morrer.
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Vontade minha, sempre sois captiva,
Meu pensamento, nunca sois mudado,
Flamma de amor, sereis sempre em mi viva.
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Suave captiveiro, doce estado,
Brando fogo de amor, que em vós guardais
A fim de meu desejo retratado.
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Nunca nesta alma a minha, aonde estais
Falteis, porque então falta a esperança,
Sem quem me falta a vida muito mais.
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Senhora, em cujo peito ódio e mudança
Lanção fóra o Amor, e sua firmeza,
Que daes esquecimento por lembrança.
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Armada dos espinhos da crueza,
Trazeis por apparencias a brandura
No rosto, a qual o peito pouco presa.
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Mostrou-me hum leve bem minha ventura,
Paguei-o logo com longo tormento,
Que o gosto foge sempre, e a pena dura.
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A tanta dôr um leve sentimento
Nunca em vós pude vêr, quanto em vão digo,
Mais mudavel que o vento o daes ao vento.
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No princípio meu Fado me foi amigo,
Naveguei pelo mar deste desejo,
Que leva de hum perigo a outro perigo.
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Em vós he pouco o amor, em mim sobejo,
Cresce em mim, falta em vós, e de maneira,
Que de quanto em vós vi, ja nada vejo.
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Mostrou-se-me o tormento na primeira
Com rostro alegre, para que o seguisse,
E lancei-me a o seguir nesta cegueira.
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Fortuna, porque quiz que eu o sentisse,
Mostra-se, por mostrar qual dentro era,
Eu chóro meu engano, e ella risse.
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Quem em contentamentos vãos espera,
Espere cedo de desenganar-se,
Que tẽe breves limites sua espera.
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Porém quem ha, que mais queira livrar-se
De tão doce prisão, ou quem deseja
Dos nós desses cabellos desatar-se?
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Os olhos, a quem as luzes tẽe inveja,
Que em vós o Amor de amor tendes vencido,
Quem ha que vos não ame, e vos não veja?
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Rosto formoso, em quem está esculpido
O mór bem, que se póde vêr na terra,
Quem ha, não queira ser por vós perdido?
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Olhai, Senhora, as horas apressadas,
Que vem cobrindo o ouro dos cabellos
De neve, e torna as rosas descoradas.
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Ireis vêr ao cristal os olhos bellos,
E ja os não vereis quaes d'antes erão,
Pois quaes então serão, não queiraes vellos.
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Usai dos bens, que vão como nascêrão,
Olhai, que tudo desce de alto estado,
Que tambem os prazeres meus descêrão,
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Mas não descerá nunca meu cuidado.
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Luís Vaz de Camões | "Foi-me alegre o viver, ja me he pesado".

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jueves, 20 de abril de 2017

Coitado! Que em um tempo choro e rio

Coitado! Que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
De uma cousa confio e desconfio.
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Avôo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.
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Qu'ria, se ser pudesse, o impossível;
Qu'ria poder mudar-me, e estar quedo;
Usar de liberdade, e ser cativo;
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Qu'ria que visto fosse, e invisível;
Qu'ria desenredar-me, e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
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Luís Vaz de Camões | "Coitado! Que em um tempo choro e rio".
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Sempre a Razão vencida foi de Amor

Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!
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Novo modo de morte, e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças e afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor!
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Pois nunca houve franqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.
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Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é razão; mas há de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.
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Luís Vaz de Camões | "
Sempre a Razão vencida foi de Amor".

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Eu cantarei de amor tão docemente

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
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Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
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Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
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Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.
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Luís Vaz de Camões | "Eu cantarei de amor tão docemente".
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domingo, 30 de octubre de 2016

Sois fermosa e tudo tendes

CANTIGA VELHA
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Sois fermosa e tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
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VOLTAS
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Ninguém vos pode tirar
serdes bem assombrada,
mas heis-me de perdoar,
que os olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
em querer que fossem verdes:
trabalhai de os esconderdes.
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A vossa testa é jardim,
aonde Amor se desenfada:
é branca e bem talhada
que parece de marfim.
Assi é, e, quanto a mim,
isso nace de a terdes
tão perto dos olhos verdes.
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Os cabelos dasatados
o mesmo Sol escurecem,
senão que, por serem ondados,
algum tanto desmerecem:
mas, à fé, que, se parecem
a furto dos olhos verdes,
não vos pese de os terdes.
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As pestanas têm mostrado
ser raios que abrasam vidas,
se não foram tão compridas
tudo o mais era pintado.
Elas me tinham levado
já sem o vós saberdes,
se não foram os olhos verdes.
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O mimo desse carão
nem pôr-lhe os olhos consente;
e ser liso e transparente
rouba todo o coração.
Inda assim achareis gente
que lhe não pese de os terdes;
mas não seja cos olhos verdes.
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Esse riso é composto
de quantas graças naceram,
senão que alguns me disseram
vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
dar-vos a alma, se quiserdes,
a troco dos olhos verdes.
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Nunca se viu, nem se escreve
boca nem graça igual,
senão fora de coral
e os dentes de cor de neve.
Dou-me a Deus, que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes,
não me tenhais os olhos verdes.
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Essa garganta merece
outras palavras, não minhas,
senão que é feita em rosquinhas
de alfenim, o que parece.
Eu sei quem se ofrece
a tomar tudo o que tendes,
e também os olhos verdes.
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Essas mãos são ferropoias,
só com vê-las, enfeitiça;
senão que são alvas e cheias,
e têm a feição roliça,
com que apelais por justiça,
para com elas prenderdes
os que têm vossos olhos verdes.
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A vossa galantaria
matará a quem falardes;
tendes uns desdéns e tardes
que eu logo vos roubaria.
Dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
também desses olhos verdes.
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Luís Vaz de Camões | "Sois fermosa e tudo tendes".
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