O dia deu em
chuvoso.
A manhã,
contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em
chuvoso.
Desde manhã eu
estava um pouco triste.
Antecipação!
Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao
acordar estava triste.
O dia deu em
chuvoso.
Bem sei, a
penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol
oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser
susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse
ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu
azul e o sol visível.
Névoa, chuvas,
escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só
sossego.
Até amaria o
lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono
de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho
efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em
chuvoso.
Carinhos?
Afectos? São memórias…
É preciso
ser-se criança para os ter…
Minha madrugada
perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em
chuvoso.
Boca bonita da
filha do caseiro,
Polpa de fruta
de um coração por comer…
Quando foi isso?
Não sei…
No azul da
manhã…
O dia deu em
chuvoso.
Álvaro de Campos | "O dia deu em chuvoso".
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3 comentarios:
¡Me encantó!
Faz tempo que o dia não "dá em chuvoso" por essas bandas de cá.
Achei este no Arquivo Pessoa, que tem tudo (!) dele. Olha só que beleza:
http://arquivopessoa.net/
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
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