lunes, 18 de enero de 2016

El mismo libro

.

2 comentarios:

Olavo Duarte dijo...

Tem um conto que eu escrevi, Aline, chamado "O Mesmo Livro" que eu acho que tem a ver com essa tira do Liniers.

O MESMO LIVRO
(inspirado numa ilustração de Adrian Tomine em "New York Drawings")
Todo dia eu te vejo no metrô. Você está sempre lendo alguma coisa. Concentrada na página, não percebe a atenção que presto em você. Sei qual é o livro que você está lendo esta manhã. Entre a estação em que você embarca e a em que você desce, algumas páginas da trama da minha história são escritas; a esta altura do enredo, o personagem masculino já deveria ter abordado a protagonista feminina, se sentado ao lado dela mesmo que os outros bancos estivessem livres. Ele já deveria ter puxado conversa, perguntado qualquer coisa sobre o autor e a obra, comentado que o livro é melhor que o filme, qualquer coisa assim. Mas não: ele é tímido. Meus personagens são todos assim. Eles ficam ali parados, com cara de paisagem, esperando um milagre cair do céu. Se minha vida fosse esse livro que você está lendo, eu teria me oferecido para segurar a sua bolsa, quando o metrô estivesse lotado ou, mais gentil que isso, oferecido o meu lugar. Eu seria, não este sujeito meio mais ou menos, mas um galã de filme de Hollywood, desses de comédia romântica, que no final das peripécias da trama, depois de uma série de desencontros, iria conquistar a garota que ele conheceu por acaso no metrô. O livro que você está lendo parece tão interessante, tão absorvente, que mais de uma vez eu sorri secretamente quando você quase se esquecia de desembarcar na sua estação. Você de repente levava um choque da realidade, levantava-se apressada, e pedindo desculpas ao cavalheiro no qual esbarrou, saia pela porta e desaparecia na Plataforma de Santa Tereza. Eu queria saber aonde você vai todo dia, o que faz - deve ser em algum escritório - como você se chama, quais são os livros que você gosta, qual foi o filme que você viu no fim de semana passado. Seria interessante conhecer a estranha que eu vejo todos os dias, de segunda a sexta, menos quando um dos dois se atrasa e perde o trem. Eu quase estou tendo uma ideia de um plano "infalível" pra chamar a sua atenção. Outro dia desses, perambulando a esmo por uma livraria do Boulevard, vi um exemplar do "nosso livro" na seção de lançamentos. Naquele dia eu quase comprei um mas, não sei porque (deve ser por causa do saldo bancário, essas coisas), não comprei. Hoje mais tarde vou voltar lá, ou em qualquer outra loja da Leitura. Daí, amanhã mesmo, vou ir para o trabalho com o livro debaixo do braço. Quando eu te "encontrar" no metrô, vou fingir que não percebi que você está lá (difícil isso) e vou abrir na página em que o herói da história conhece a mocinha. Daí, como quem não quer nada, vou olhar para você e você estará de olhos arregalados, ao perceber que as contra-capas dos nossos exemplares formam um espelho; você vai sorrir acanhada para mim, eu eu vou retribuir o sorriso, mostrando o livro e a página em que estou. Mas, como a nossa história é uma comédia romântica, a voz do condutor soará nos alto falantes: "Estação Santa Tereza" e você vai desembarcar apressada como nos outros dias.
Quem sabe no dia seguinte você se sentará ao meu lado e perguntará: em que página você está?
Eu responderia: na cena do beijo, dentro do metrô.
Você ia rir.

RABELO, Aline dijo...

Genialíssimo, Olavo!