jueves, 30 de marzo de 2017

Riso

A menina que fui —
conheço-a, é claro.
Tenho umas fotos
de sua vida breve.
Sinto certa pena
de alguns versinhos.
Lembro-me de alguns eventos.
.
Mas,
para que este que está aqui comigo
ria e me abrace,
recordo só uma historinha:
o amor de infância
daquela feinha.
.
Conto como
se apaixonou por um estudante,
quer dizer, queria
que ele a olhasse.
.
Conto como
correu em sua direção
com uma bandagem na testa sã
para que, oh, pelo menos perguntasse
o que aconteceu.
.
Criança engraçada.
Como podia saber
que até o desespero traz vantagens,
se por sorte
se vive mais tempo.
.
Dar-lhe-ia um dinheirinho
para um doce, um cinema.
Vá, não tenho tempo.
.
Pois decerto você percebe,
a luz está apagada.
Com certeza entende,
a porta está fechada.
Não force a maçaneta —
este que riu,
este que me abraçou
não é o teu estudante.
.
Era melhor que você voltasse
para o lugar de onde veio.
Não lhe devo nada,
uma mulher comum
que só sabe
quando
trair um segredo alheio.
.
Não nos olhe desse jeito
com esses teus olhos
tão abertos
como os olhos dos mortos.
.
Wislawa Szymborska | "Riso".
(Tradução Regina Przybycien)
.

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