sábado, 15 de abril de 2017

Número Pi

O admirável número Pi
três vírgula um quatro um.
Todos os seus algarismos sucessivos também são iniciais,
cinco nove dois porque não acaba nunca.
Não se deixa abranger seis cinco três cinco pelo olhar
oito nove pelo cálculo
sete nove pela imaginação,
e nem três dois três oito numa piada, ou seja, na comparação
quatro seis com qualquer coisa
dois seis quatro três no mundo.
A cobra mais comprida da terra acaba depois de alguns metros.
O mesmo, embora um pouco depois, fazem as cobras das fábulas.
O desfile de algarismos que compõem o número Pi
não para na margem da página,
consegue estender-se pela mesa, pelo ar,
pelo muro, folha, ninho de pássaro, nuvens, direto para o céu,
por toda a extensão e profundeza do céu.
Oh, como é curto, que nem de rato, o rabo de um cometa!
Como é tênue o raio de uma estrela, que se curva a cada espaço!
E aqui dois três quinze trinta dezenove
o número do meu telefone o tamanho da tua camisa
o ano de mil novecentos e setenta e três o sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida dos quadris dois dedos charada e cifra,
na qual voa e canta rouxinol meu,
e mais pede-se manter a calma,
e também o céu e a terra passarão,
mas não o número Pi, esse não, nada disso,
ele ainda está aí com seu passável cinco,
um nada mau oito,
um não último sete,
incitando, ah, incitando a indolente eternidade
a durar.

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Wislawa Szymborska | "Número Pi".
(Tradução Regina Przybycien)
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