miércoles, 9 de agosto de 2017

Desatenção

Ontem me comportei mal no universo.
Vivi o dia inteiro sem indagar nada,
sem estranhar nada.
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Executei as tarefas diárias
como se isso fosse tudo o que devia fazer.
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Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações,
mas sem um pensamento que fosse
além de sair de casa e voltar para casa.
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O mundo podia ter sido percebido como um mundo louco,
e eu o tomei somente para uso habitual.
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Nenhum — como — e por quê
e como foi que aqui apareceu
e de que lhes servem tantas minúcias buliçosas.
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Fiquei como um prego mal pregado na parede
ou
(aqui uma comparação que me faltou).
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Uma depois da outra ocorreram mudanças
mesmo no estrito espaço de um pestanejar.
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Sobre uma mesa mais nova, por mão um dia mais nova,
o pão de ontem foi cortado de um modo diferente.
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Nuvens como nunca, uma chuva como nunca,
pois caíram gotas diferentes.
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A Terra girou em torno de seu eixo,
mas num espaço já abandonado para sempre.
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Isso durou umas boas 24 horas.
1440 minutos de chances.
86 400 segundos para intuições.
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O savoir-vivre cósmico,
embora se cale sobre nós,
ainda assim nos exige algo:
alguma atenção, umas frases de Pascal
e uma participação perplexa nesse jogo
de regras desconhecidas.
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 Wislawa Szymborska | "Desatenção".
(Tradução
Regina Przybycien)
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